13/10/2025 Quarto dia da 8ª Semana Dom Luciano debate sobre imaginária devocional, arte e história
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No dia 09 de outubro de 2025, quinta-feira, ocorreu, no Auditório Dom Oscar de Oliveira, na casa da Etapa do Discipulado do Seminário São José, o quarto dia da VIII Semana Acadêmica Dom Luciano, realizada pela Arquidiocese de Mariana, pelo Seminário São José e pela Faculdade Dom Luciano Mendes (FDLM).

O dia foi marcado por reflexões acerca da imaginária devocional presente nas igrejas desta Igreja Particular, pela linguagem dos sinos e por comunicações de temas variados relativos à história da primeira diocese de Minas Gerais.

Pela manhã, os participantes puderam apreciar a Mesa Redonda: “Imaginária Devocional” formada pela Profa. Dra. Adalgisa Arantes Campos, pela Profa. Dra. Maria Regina Emery Quites e pelo Mestre Leandro Gonçalves de Rezende.

Da esquerda para direita: Me. Leandro Gonçalves de Rezende, Profa. Dra. Adalgisa Arantes Campos e a Profa. Dra. Maria Regina Emery Quites.

A primeira fala foi proferida pela Profa. Dra. Adalgisa com o tema “O contributo de frei Agostinho de Santa Maria ao estudo da imaginária mariana, em São Bartolomeu (MG) no primeiro quartel do século XVIII”. Destacou-se a apresentação da rede de devoções, imagens e altares na principal igreja do povoado, sobretudo as relacionadas a diversos títulos de Nossa Senhora.

Por meio da exposição de informações históricas e artísticas em relação a essas obras de arte, a partir do texto “Santuário Mariano”, publicado pelo frei Agostinho de Santa Maria, em 1723, ressaltou-se a importância da devoção religiosa mariana no distrito de São Bartolomeu, forte marca do catolicismo em Portugal e no Brasil.

A professora destacou algumas imagens como a Nossa Senhora das Candeias, intensamente venerada no século XVIII, especialmente por um grupo de devotos portugueses. Atualmente, a imagem não está exposta à veneração. A imagem de Nossa Senhora do Pilar, uma devoção espanhola, a qual prosperou nas Minas Gerais, como em Ouro Preto, São João del Rei e Nova Lima. Continua no altar lateral e é venerada, pois não foi recolhida. A imagem de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, ligada à Irmandade de africanos, não mestiços. No século XIX, foi substituída por Nossa Senhora das Dores, uma imagem de roca, que é levada em procissão com trajes de tecido.

Por último, a imagem de Nossa Senhora do Carmo, atribuída ao Aleijadinho, embora muito repintada. Sua presença em São Bartolomeu justifica-se pela vinculação histórica da localidade ao Carmo de Ouro Preto.

Segundo a professora, é importante que os seminaristas e toda a comunidade de fé tenham um olhar para o passado e para a vitalidade do culto mariano nas comunidades, valorize o próprio patrimônio, interligando arte, devoção e religião. Um legado histórico e cultural compreendido no culto às imagens.

“É importante que os nossos seminaristas, formados a partir do ideário do Vaticano II, que eles tenham um olhar para o passado, que não é tão passado assim, porque o culto mariano é muito vivo nas nossas comunidades. A beleza, a arte, a devoção e religião, elas caminham junto, uma coisa leva à outra”, ressaltou Dra. Adalgisa.

Em seguida, ocorreu a segunda fala da manhã, intitulada “Imagens de vestir: devoção na Semana Santa em Santa Bárbara (MG)”, explanada pela Profa. Dra. Maria Regina. A palestrante destacou três imagens de vestir fortemente veneradas em Santa Bárbara durante a Semana Santa: o Senhor dos Passos/Ecce Homo, o Cristo Morto e a Senhora das Dores.

Para ela, essa ação deve ser realizada com arte, zelo e dedicação, respeitando as características próprias de cada comunidade, pois é um momento emotivo, forte e carregado de fé.

Maria Regina evidencia a essencialidade da compreensão e da dimensão emocional e devocional por parte dos seminaristas e futuros líderes religiosos.

“Esse público de seminaristas, futuramente vão assumir essas paróquias, e saber lidar com essa religiosidade que existe nessas imagens é rico e é importante eles entenderem e prestarem mais atenção nisso”, evidenciou.

Para encerrar a manhã, ocorreu a palestra “Repertório Iconográfico da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Cachoeira do Brumado: um elo entre arte e fé”, comunicada pelo Mestre Leandro Gonçalves.

O pesquisador ressaltou principalmente a pesquisa historiográfica do conjunto imagético presente na Igreja Matriz de Cachoeira do Brumado, o seu restauro e as características das várias imagens, que revelam a relevância da devoção à Virgem Maria em terras mineiras e a iconografia sacra tridentina como instrumento de catequese, devoção e evangelização.

Para Leandro, a preservação histórica e devocional como base de conhecimento para a fé, solidariedade e o compartilhamento de conhecimento para o serviço da fé, conecta passado com o presente e preserva o futuro.

“Então estar aqui, hoje, falando sobre o repertório iconográfico da Matriz Nossa Senhora da Conceição de Cachoeira do Brumado, é uma forma de resgatar esse passado histórico, devocional, entender e preservar ele para gerações futuras”, frisou Leandro.

Após as três conferências, a mesa redonda encerrou-se com uma rede de provocações e reflexões sobre a imaginária devocional nos altares das igrejas arquidiocesanas, principalmente as históricas.

O seminarista Pedro Augusto Alves Toledo, do segundo período do curso de Filosofia da FDLM, citando Santo Agostinho que dizia: “só amamos aquilo que conhecemos”, salientou a fundamental importância do tema para a sua formação

“Enquanto seminaristas, na vivência da comunidade, podemos perceber essas devoções, porque nos ajudam, de fato, a perceber o grande amor que essas pessoas têm para com Deus, e isso nos motiva a colocar nesse caminho de discernimento, sempre olhando para o Cristo como centro das nossas vidas, através desse amor e dessa devoção das comunidades”, salientou o seminarista.

Da esquerda para direita: Padre Edvaldo Antônio, seminarista Nillo, Padre Lucas Muniz, Me. Leandro, Profa. Dra. Adalgisa, Maria Agripina, Profa. Dra. Maria Regina e Padre Anderson.

A linguagem dos Sinos e Comunicações

Profa. emérita e escritora Hebe Maria Rôla Santos.

No período da tarde, foi apresentada a palestra intitulada: “Toques e repiques: a linguagem dos sinos de Mariana”, pela ilustre Profa. emérita e escritora Hebe Maria Rôla Santos. A professora iniciou sua palestra recitando o aclamado poema de Alphonsus de Guimaraens: “A Catedral. Em seguida, perpassou a história dos sinos desde a etimologia da palavra sino, que vem do latim signum (sinal), aos diversos toques e repiques para as diversas ocasiões.

A professora emérita explicou a diferença entre badaladas, repiques e os sinais de morte, além das crendices populares e concluiu que os sinos são muito mais do que instrumentos barulhentos; eles “encerram em seu bojo tipos e consonâncias diversas”, atuando como “arautos de nossas emoções mais íntimas”, seja na alegria ou na dor. Sua linguagem é “divina, sobrenatural”, simbolizando a fé e a conexão com o divino, razão pela qual foram colocados no alto das torres.

Ela finaliza com um apelo para que as pessoas valorizem e conservem os sinos, pois eles colaboram em todos os momentos, sejam agradáveis ou desagradáveis.

Após a palestra da Prof. Hebe, ocorreu a oficina de bordados “A Cinerata”, com as bordadeiras do Movimento Renovador de Mariana. Momento descontraído em que as bordadeiras fizeram todos colocar a “mãos na massa” na confecção de um sino bordado. Uma recordação voltada para as toalhas dos altares das Igrejas, em que o trabalho das bordadeiras estão presentes para tornar o momento de oração mais meditativo.

Padre José Geraldo Coura (Padre Juca) na oficina de bordados.

Para o seminarista Weverton Fabrício de Paula, do segundo período de filosofia, o evento focado na preservação das tradições eclesiásticas relembra o trabalho de muitas senhoras que dedicam suas vidas ao bordado para as igrejas.

“Isso toca muito nosso imaginário, por que quantas são as senhoras que bordam? Quantas são as senhoras que fazem esse trabalho para as nossas igrejas? Quantas pessoas doam a sua vida fazendo esse trabalho bonito para a igreja? Então é muito importante participar desse momento, porque me ajudou a valorizar mais o trabalho e o empenho dessas pessoas”, reforçou o seminarista.

A Presidente do Movimento Renovador de Mariana, Vânia Silva, acentuou sua alegria e a importância de divulgar o patrimônio material e imaterial de Mariana, através da arte do bordado, especialmente para seminaristas.

“Mostrar o patrimônio de Mariana, o sino, o toque de sino, através do bordado e mostrar essa arte para os seminaristas é de muita alegria, porque quando a gente vê os rapazes bordando com entusiasmo, pegando na agulha, tentando e conseguindo bordar, para nós é uma alegria muito grande”, acentuou Vânia.

As Comunicações

O especialista em docência do ensino superior e Seminarista do Segundo Ano da Etapa da Configuração, João Lucas Ferreira Basílio, apresentou a comunicação intitulada “Municípios e Igrejas da Arquidiocese de Mariana: História, Estrutura e Identidade Religiosa”. A centralidade da pesquisa do Seminarista consiste desde a investigação da criação das primeiras paróquias da presente Arquidiocese de Mariana, até a análise daquelas paróquias que foram suprimidas e acopladas.

A segunda comunicação com o título “Construindo um banco de dados a partir dos Livros de Provisão sob guarda do AEAM: potenciais de pesquisa e resultados preliminares” foi apresentada por Gyovana de Almeida Félix Machado, doutoranda em história pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora. A doutoranda em história trabalha com pesquisas no Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, tendo por finalidade armazenar, construindo um banco de dados digital, as informações obtidas nos Livros de Provisão da Arquidiocese de Mariana.

A terceira comunicação apresentada pelo Mestre Thales Contin Fernandes tratou sobre o tema: “Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai: a espiritualidade lazarista nas missões no Bispado de Mariana (1840-1890)”. O palestrante teve por centralidade de sua comunicação a explanação da espiritualidade dos lazaristas, principalmente no que tange à arte oratória dos lazaristas, como: ensinar pela palavra e pelo exemplo.

De maneira remota, a quarta comunicação da tarde contou com a presença do Dr. Igor Alves Norberto Soares tratando do tema Dom Silvério Gomes Pimenta: anotações jornalísticas sobre sua difusão catequética e projeção pastoral a partir de 1890”. O palestrante apresentou traços da biografia de Dom Silvério, assim como as preocupações do bispo com a catequese dos fiéis e com o Estado, manifestados em seus escritos jornalísticos.

A quinta comunicação foi apresentada pelo Psicólogo, Diretor de Promoção da Igualdade Racial e Capitão da Guarda de Moçambique de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, Kedison Geraldo Ferreira Guimarães. O tema dessa comunicação foi “Fé, Cultura e Resistência: A Devoção dos Congadeiros a Nossa Senhora do Rosário. Kedison apresentou o real significado da devoção à Nossa Senhora do Rosário para todos os congadeiros.

Por fim, de forma breve, o Diretor Acadêmico da FDLM, Pe. Edvaldo Antônio de Melo, junto a alguns dos discentes da Faculdade apresentaram as frentes de trabalho realizados na faculdade diante dos 280 anos da Arquidiocese de Mariana.

Texto: Seminarista Vítor Alves Rodrigues e Silva; seminarista Brenno Maciel de Paiva Rosa, e Dacom/Arquidiocese de Mariana.
Fotos: Dacom/Arquidiocese de Mariana e Thalles Andrade Torres.

Arquidiocese de Mariana